Uma pesquisa realizada pela Universidade Tecnológica de Graz (TU Graz), na Áustria, reacendeu o debate sobre a segurança veicular para mulheres. O estudo concluiu que, em acidentes graves, elas podem ter mais que o dobro do risco de sofrer ferimentos severos ou fatais em comparação aos homens, mesmo quando ocupam o mesmo veículo e estão submetidas às mesmas condições de colisão.
A explicação está em um problema que acompanha a indústria automotiva há décadas: os testes de segurança continuam sendo baseados, em grande parte, em características corporais masculinas.
Testes ainda usam padrão masculino
Os pesquisadores analisaram acidentes registrados entre 2012 e 2024 na Áustria e recriaram as colisões por meio de modelos humanos virtuais.
Os resultados mostraram diferenças significativas na forma como corpos masculinos e femininos reagem aos impactos.
Segundo o levantamento, os sistemas de proteção, como cintos de segurança e airbags, foram historicamente desenvolvidos e calibrados utilizando como referência um homem adulto considerado "médio", o que pode comprometer a eficiência desses equipamentos para outros biotipos.
Os famosos "dummies"
Grande parte dos testes de colisão realizados pela indústria utiliza manequins conhecidos como "dummies".
O modelo mais comum representa um homem de aproximadamente:
- 1,77 metro de altura;
- 77 quilos de peso.
Embora exista uma versão feminina utilizada em alguns testes, especialistas apontam que ela é apenas uma adaptação reduzida do manequim masculino, sem representar adequadamente as características anatômicas da maioria das mulheres.
Pesquisadores afirmam que essa diferença influencia diretamente na forma como o corpo se movimenta durante uma colisão e na atuação dos sistemas de retenção.
Problema é discutido há décadas
O tema não é novo.
Desde a década de 1980, pesquisadores e entidades ligadas à segurança viária vêm defendendo a criação de protocolos mais abrangentes, capazes de representar diferentes perfis físicos da população.
Apesar dos avanços, muitos dos procedimentos oficiais de homologação continuam utilizando métodos considerados ultrapassados por especialistas da área.
Indústria busca novas soluções
Algumas fabricantes já começaram a desenvolver tecnologias capazes de adaptar os sistemas de proteção ao perfil de cada ocupante.
Entre os exemplos estão:
- Cintos de segurança inteligentes;
- Sistemas de pré-tensionamento adaptativo;
- Airbags com pressão variável;
- Sensores capazes de identificar peso, posição e biotipo dos ocupantes.
Recentemente, a Volvo apresentou um sistema de cinto de segurança com inteligência artificial capaz de ajustar automaticamente sua atuação de acordo com as características físicas da pessoa.
BMW, Mercedes-Benz e Toyota também trabalham em tecnologias semelhantes para ampliar a proteção dos ocupantes.
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Tecnologias ainda não chegaram ao Brasil
Apesar dos avanços observados em mercados internacionais, muitas dessas soluções ainda não estão disponíveis nos veículos comercializados no Brasil.
Especialistas defendem que a evolução dos testes de colisão e a adoção de novos protocolos de segurança serão fundamentais para reduzir desigualdades e garantir proteção mais eficiente para todos os ocupantes, independentemente de gênero, altura ou composição física.
O debate reforça a necessidade de que a segurança automotiva acompanhe a diversidade real dos motoristas e passageiros, refletindo melhor as características da população que utiliza os veículos diariamente.