A expansão das marcas chinesas transformou o mercado automotivo brasileiro. Com veículos eletrificados, tecnologias avançadas e preços competitivos, fabricantes como BYD, Geely, MG e Leapmotor conquistaram espaço entre os consumidores. O crescimento acelerado, porém, também trouxe questionamentos sobre a capacidade do pós-venda de acompanhar o aumento da frota.
Relatos reunidos pela revista Autoesporte mostram proprietários enfrentando dificuldades para encontrar peças de reposição, obter informações sobre reparos e receber os veículos de volta dentro dos prazos inicialmente informados. Em alguns casos, os automóveis permaneceram por meses em concessionárias, aguardando componentes ou a conclusão de serviços.
Os problemas descritos envolvem situações diferentes, desde a substituição de para-brisas e componentes de suspensão até reparos após acidentes e falhas que exigem procedimentos técnicos específicos. As experiências não representam necessariamente toda a rede de cada fabricante, mas evidenciam desafios enfrentados por parte dos consumidores.
MG4 ficou meses à espera de um para-brisa
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Felipe Pacheco, dono de um MG4, enfrentou problemas antes e depois da troca da peça de reposiçã — Foto: Reprodução/Felipe Pacheco
Um dos casos envolve Felipe Pacheco, proprietário de um MG4 Comfort 2025/2026, que teve o para-brisa danificado por uma pedra durante uma viagem em abril de 2026. A substituição do componente ocorreu somente em setembro, após sucessivos adiamentos no prazo de entrega.
Segundo o proprietário, houve dificuldades para localizar a peça no Brasil, mudanças nas previsões e divergências nas informações recebidas das empresas envolvidas no atendimento. Ele também relatou falta de atualizações espontâneas sobre o andamento do processo.
Mesmo após a troca do vidro, o problema não foi totalmente resolvido. O sistema de assistência à condução, conhecido como ADAS, precisava passar por uma calibração específica, mas a oficina contratada pela seguradora não conseguiu concluir o procedimento com os equipamentos disponíveis.
Em resposta à Autoesporte, a MG afirmou que a solicitação inicial foi conduzida pela seguradora e por prestadores credenciados, sem a participação inicial da rede autorizada. A fabricante informou ainda que a substituição foi feita por um estabelecimento fora de sua rede e que o sistema ADAS exige equipamentos e softwares homologados.
A empresa declarou que a indisponibilidade do para-brisa foi temporária e já estava regularizada em junho de 2026. Também afirmou manter um centro de distribuição em Cajamar, São Paulo, e se colocou à disposição para realizar o diagnóstico e a calibração em uma concessionária autorizada.
Leapmotor C10 ficou mais de dois meses na concessionária
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Leonardo Pontes, dono de um Leapmotor C10, alega problemas no atendimento, além de longo tempo de espera pela nova peça — Foto: Reprodução /Leonardo Pontes
Outro relato é de Leonardo Pontes, proprietário de um Leapmotor C10, que precisou substituir componentes após um incidente durante uma viagem. O veículo teve danos no pneu, na roda e no amortecedor, além de uma trinca no para-brisa provocada por uma pedra.
O prazo inicialmente informado para o reparo era de 15 a 20 dias. De acordo com o proprietário, a espera aumentou para 30 e depois 40 dias, sem uma previsão concreta para a conclusão. O veículo permaneceu na concessionária por pouco mais de dois meses e foi entregue em 30 de setembro.
Leonardo afirmou que o reparo foi realizado com qualidade, mas criticou a comunicação durante o processo e a dificuldade para obter informações sobre a localização das peças. Ele também destacou que o prazo de 15 dias de carro reserva oferecido pelo seguro foi muito inferior ao período em que ficou sem o automóvel.
A Stellantis, grupo responsável pela operação da Leapmotor no Brasil, informou que situações pontuais podem envolver disponibilidade de componentes, logística de transporte e processos de importação. A empresa declarou monitorar os estoques e a demanda da rede e afirmou que suas equipes de pós-venda, peças e atendimento trabalham em conjunto para solucionar ocorrências.
A companhia também ressaltou que os prazos variam conforme o componente e a complexidade do serviço, e que a rede de concessionárias é orientada a manter os clientes informados.
Reparos após acidentes também geram longas esperas
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Thiago Alves, dono de um Geely EX2 Pro, ficou três meses sem seu veículo, que estava em reparo na concessionária — Foto: Reprodução / Thiago Alves
Os relatos envolvendo a Geely mostram como a disponibilidade de peças pode afetar veículos que precisam de reparos após colisões.
Thiago Alves, proprietário de um Geely EX2 Pro, relatou que seu automóvel precisou de diversos componentes após uma batida. O veículo chegou à concessionária em 19 de junho de 2026, e os reparos foram autorizados no dia 30 daquele mês. A previsão inicial era de aproximadamente 40 dias, mas a entrega ocorreu apenas em 25 de setembro.
Outro caso foi relatado por Nadielle Lisboa, dona de um Geely EX2 Max. Depois de uma colisão frontal, ela precisou substituir componentes da dianteira, mas recebeu a informação de que algumas peças estavam indisponíveis e não havia previsão de chegada.
A proprietária decidiu procurar os componentes em outras concessionárias do país e conseguiu localizar itens em estados diferentes. Segundo ela, algumas peças chegaram em cerca de dois dias por transporte aéreo ou rodoviário. Mesmo assim, o processo teve novos entraves, incluindo uma avaliação posterior sobre a necessidade de substituir o radiador.
Nos dois casos, a reportagem informou que a Geely condicionou seu posicionamento ao recebimento de informações adicionais dos clientes, que optaram por não fornecê-las.
Proprietário de BYD aguarda solução para itens do veículo
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Filipe Capezzera, dono de um BYD Dolphin Mini, ainda agurda reposição de peça solicitada em julho — Foto: Reprodução/Filipe Capezzera
O proprietário de um BYD Dolphin Mini, Fillipe Capezzera, também relatou problemas no pós-venda. Motorista de aplicativo em Pernambuco, ele afirmou que o veículo apresentou corrosão na lataria, falha na caixa de direção, problema na caixa evaporadora do ar-condicionado e descascamento do revestimento do volante.
Segundo o relato, a caixa de direção foi substituída em setembro, solucionando esse defeito. Entretanto, a caixa evaporadora ainda estava pendente, assim como a análise da solicitação referente ao volante.
O proprietário afirmou que a reclamação sobre o revestimento foi registrada em junho e que inicialmente recebeu uma previsão de 25 a 30 dias para a chegada da peça. Depois, foram solicitadas novas evidências do problema, que ele providenciou e reenviou.
Assim como no caso da Geely, a BYD condicionou seu posicionamento ao envio de informações adicionais pelo cliente, que optou por não fornecê-las à reportagem.
O que os relatos revelam sobre o pós-venda
Os casos apresentam diferenças importantes: há situações relacionadas à importação e à disponibilidade de peças, problemas de comunicação entre seguradoras e concessionárias e procedimentos que exigem equipamentos específicos para a manutenção dos veículos.
Em automóveis modernos, a troca de componentes pode envolver etapas adicionais de diagnóstico, programação eletrônica e calibração de sistemas de assistência à condução. Quando essas operações não podem ser realizadas pela oficina responsável, o reparo pode se prolongar mesmo depois da chegada da peça.
A expansão de uma marca exige, portanto, não apenas ampliar as vendas, mas também estruturar estoques, logística, treinamento técnico e atendimento ao consumidor. A disponibilidade de componentes e a transparência sobre os prazos são fatores importantes para reduzir o tempo em que os veículos permanecem parados.
Os relatos publicados pela Autoesporte não permitem concluir que todas as marcas chinesas enfrentem os mesmos problemas ou que as dificuldades sejam generalizadas. Eles mostram, contudo, que a experiência de pós-venda pode variar significativamente conforme o modelo, o componente necessário, a região e a estrutura de atendimento disponível.
Para quem pretende comprar um veículo, além de avaliar preço, autonomia, equipamentos e desempenho, vale verificar a presença de concessionárias autorizadas na região, a estrutura de assistência técnica e as condições de atendimento previstas pela fabricante.