Abastecer o carro nas primeiras horas da manhã ou à noite para tentar economizar combustível é uma prática bastante difundida entre motoristas. A ideia tem fundamento físico, já que a gasolina e o etanol sofrem alterações de densidade conforme a temperatura. No entanto, no dia a dia, escolher um horário específico dificilmente proporciona uma economia perceptível.
O princípio é simples: quando um combustível líquido é aquecido, seu volume aumenta, enquanto sua massa permanece praticamente constante. Com isso, sua densidade diminui. Quando esfria, ocorre o contrário: o volume diminui e a densidade aumenta.
Na prática, isso significa que um mesmo volume de combustível mais frio pode conter uma quantidade ligeiramente maior de massa e energia química do que o mesmo volume do produto mais quente, considerando a mesma composição.
O problema é que a temperatura do ar não corresponde necessariamente à temperatura do combustível que chega à bomba. Por isso, abastecer pela manhã, quando o ambiente costuma estar mais frio, não garante uma vantagem econômica.
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Gasolina e etanol podem sofrer alterações mais perceptíveis na temperatura quando há uma nova carga de combustível — Foto: Renan Rodrigues/Autoesporte
Por que o horário faz pouca diferença?
A principal explicação está na forma como os combustíveis são armazenados. Nos postos, gasolina e etanol geralmente ficam em tanques subterrâneos, protegidos da exposição direta às mudanças de temperatura da superfície.
O solo e o grande volume de combustível armazenado fazem com que a temperatura varie lentamente, reduzindo os efeitos das oscilações entre uma manhã fria e uma tarde quente.
Embora partes do sistema próximas à superfície, como tubulações e componentes da bomba, possam responder mais rapidamente às condições externas, isso não significa que todo o combustível armazenado apresente uma mudança significativa de temperatura ao longo do dia.
Uma alteração mais perceptível pode ocorrer quando uma nova carga de combustível chega ao posto com temperatura diferente daquela do produto já armazenado. Mesmo assim, a eventual vantagem depende da temperatura real do combustível no momento do abastecimento, e não simplesmente do horário escolhido pelo motorista.
Quantidade fornecida pela bomba é outra questão
A temperatura e a densidade do combustível não devem ser confundidas com a quantidade efetivamente entregue pela bomba. O volume indicado no equipamento deve corresponder ao fornecido ao consumidor, respeitadas as regras metrológicas aplicáveis.
Caso desconfie de irregularidade, o motorista pode solicitar o teste de volume no próprio posto, utilizando a medida-padrão de 20 litros disponibilizada pelo estabelecimento. Também é recomendável acompanhar o procedimento, verificar se a bomba parte do zero e guardar a nota fiscal.
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a diferença entre abastecer nas primeiras horas da manhã e no meio de uma tarde quente tende a ser muito menor do que a crença popular sugere — Foto: Engin Aykurt
A tolerância metrológica prevista nas normas não autoriza o posto a fornecer deliberadamente menos combustível do que o indicado.
O preço pode mudar ao longo do dia
Se a temperatura dificilmente oferece uma economia perceptível, acompanhar os preços pode fazer mais diferença no orçamento. Os postos podem alterar os valores cobrados ao longo do dia, desde que respeitem as regras de informação e transparência previstas na legislação de defesa do consumidor.
Por isso, comparar preços entre estabelecimentos e escolher um posto de confiança são medidas mais práticas para economizar do que acordar mais cedo ou esperar até a noite para abastecer.
Afinal, qual é o melhor horário para abastecer?
Não existe um horário universal que garanta economia significativa apenas porque a temperatura ambiente está mais baixa. A influência da temperatura sobre a densidade é real, mas o armazenamento subterrâneo reduz as variações do combustível ao longo do dia.
Em condições controladas, como no automobilismo, a temperatura pode ter um efeito relevante. Na Fórmula 1, por exemplo, a refrigeração do combustível já foi considerada uma estratégia para aumentar sua densidade e melhorar a eficiência de utilização do espaço disponível no tanque. Esse tipo de situação, porém, não representa as condições comuns de abastecimento em postos.
Para economizar no dia a dia, vale mais pesquisar preços, abastecer em estabelecimentos confiáveis, utilizar combustível de procedência adequada e acompanhar o consumo do veículo. A temperatura interfere nas propriedades físicas do combustível, mas escolher um horário específico para abastecer não garante uma vantagem significativa para o bolso.