O mercado de mobilidade urbana segue passando por transformações, e um novo movimento tem chamado a atenção: cada vez mais motoristas que atuavam no transporte de passageiros por aplicativos estão migrando para o segmento de entregas.
 
O crescimento de plataformas de logística, aliado à expansão de empresas como Shopee, Amazon e Lalamove, ampliou a oferta de oportunidades para profissionais que utilizam carros, motos e utilitários para realizar entregas de encomendas.
 
Entre os principais motivos apontados pelos trabalhadores estão a possibilidade de reduzir os custos com combustível e manutenção, além da expectativa de obter uma renda maior com menor quilometragem percorrida.
 
A entregadora Tainá Casali, que atua na Shopee ao lado da companheira Michele Bordignon, afirma que a mudança trouxe ganhos financeiros e melhor qualidade de vida. Segundo ela, antes era necessário rodar entre 150 e 200 quilômetros por dia, trabalhar cerca de 12 horas e gastar aproximadamente R$ 100 diários em combustível para obter um lucro de R$ 244.
 
 
Hoje, realizando entregas, a realidade é diferente. Ela conta que percorre entre 30 e 40 quilômetros para alcançar a mesma renda, trabalha cerca de quatro horas por rota e leva até três dias para consumir a mesma quantidade de combustível utilizada anteriormente em apenas um dia.
 
Além da economia, os profissionais destacam que as entregas reduzem problemas comuns no transporte de passageiros, como limpeza constante do veículo, conflitos com clientes e a sensação de insegurança durante as corridas.
 
Por outro lado, a atividade também apresenta dificuldades. Michele relata que, em alguns dias, os motoristas permanecem horas aguardando o carregamento dos veículos nos centros de distribuição antes de iniciar as entregas. Dependendo da demanda, a jornada pode ultrapassar 12 horas entre espera, organização das encomendas e conclusão das rotas.
 
Quem atua com motocicleta também percebe diferenças. O entregador Isaac Toledo Dull afirma que deixou o transporte de passageiros por considerar as entregas menos desgastantes, principalmente pela redução de conflitos com clientes e pelos menores custos de manutenção da moto.
 
Em São Paulo, o motorista Luciano Acioli afirma que conseguiu aumentar significativamente a renda ao trabalhar exclusivamente com entregas. Segundo ele, atualmente estabelece metas diárias, trabalha apenas em horário comercial e não precisa mais atuar aos finais de semana ou feriados.
 
Nem todos aprovam a mudança
 
Apesar dos relatos positivos, nem todos os profissionais avaliam a migração como vantajosa.
 
Um entregador de Florianópolis, que preferiu não se identificar, afirma que enfrentou dificuldades com atrasos nos pagamentos, descontos considerados indevidos, jornadas prolongadas e baixa oferta de rotas. Segundo ele, em algumas operações o motorista precisa cumprir um percentual mínimo de entregas para receber pelo dia trabalhado.
 
O profissional também critica a necessidade de acordar ainda durante a madrugada para verificar se foi escalado, além das longas esperas para carregamento dos veículos e da exposição às condições climáticas durante as entregas.
 
Na avaliação dele, tanto o transporte de passageiros quanto o setor de entregas perderam parte da rentabilidade observada há alguns anos.
 
Empresas apontam tendência de mercado
 
Para as empresas do setor, o movimento representa uma diversificação natural dentro da economia de plataformas.
 
A Lalamove afirma que muitos profissionais aproveitam o mesmo veículo utilizado anteriormente para ampliar as oportunidades de renda por meio do transporte de cargas. Segundo a empresa, a flexibilidade para definir horários e rotinas é um dos principais atrativos apontados pelos parceiros.
 
Já a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) considera a migração uma consequência da expansão das plataformas digitais e defende uma regulamentação nacional que preserve a autonomia dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que garanta proteção social e segurança jurídica para o setor.
 
Com a expansão do comércio eletrônico e o aumento da demanda por logística urbana, a tendência é que o mercado de entregas continue crescendo nos próximos anos, oferecendo aos motoristas mais uma alternativa de atuação dentro da economia de aplicativos.