A corrida pelo desenvolvimento de veículos autônomos envolve carros de passeio, ônibus e caminhões, mas são os veículos pesados que podem chegar primeiro aos níveis mais avançados de autonomia. Isso acontece principalmente porque determinadas operações com caminhões ocorrem em ambientes mais previsíveis e controlados.
Na mineração, por exemplo, caminhões autônomos já são utilizados em operações específicas. O setor também é um dos principais ambientes de testes para a tecnologia, justamente por permitir rotas e condições de circulação mais controladas.
Um dos exemplos é o Scania AXL, apresentado em 2019 como um caminhão-conceito totalmente autônomo e sem cabine. O modelo foi desenvolvido para operações em minas e grandes canteiros de obras fechados. A própria Scania destaca que esses ambientes são favoráveis aos testes porque possuem condições mais controladas.
O AXL utiliza câmeras, radares, sensores lidar e GPS para interpretar o ambiente ao redor. Em uma mina, por exemplo, o veículo pode receber informações de um sistema logístico que determina as tarefas que deverá executar.
Caminhões também avançam nas rodovias
A tecnologia não está restrita a ambientes fechados. A Iveco, por exemplo, iniciou em 2026 um programa de testes com caminhões autônomos de nível 4 na Espanha.
Os veículos utilizados são caminhões IVECO S-Way preparados para operar em rotas de transporte de carga entre Madri e Zaragoza, em um corredor de aproximadamente 300 quilômetros. Os testes terão duração de vários anos e, durante essa fase, haverá um operador de segurança a bordo.
O nível 4 representa uma etapa importante porque o veículo consegue realizar a condução de forma autônoma dentro de condições e áreas previamente determinadas, sem exigir intervenção humana constante durante a operação.
Por que os caminhões levam vantagem?
Um dos principais motivos é a previsibilidade das operações.
Caminhões utilizados em mineração, portos, centros logísticos e determinadas rotas de transporte de carga podem seguir trajetos previamente definidos e trabalhar em ambientes nos quais há menos variáveis do que nas ruas de uma cidade.
Um carro de passeio que circula diariamente em uma área urbana precisa lidar com pedestres, motociclistas, ciclistas, cruzamentos, veículos estacionados, mudanças repentinas de faixa, obras, semáforos e uma grande quantidade de situações imprevisíveis.
Já uma operação autônoma de transporte de carga pode ser planejada com rotas, velocidades, áreas de circulação e tarefas previamente estabelecidas.
É justamente por isso que fabricantes e fornecedores de tecnologia vêm concentrando parte dos primeiros projetos de autonomia avançada nos veículos pesados.
E os carros de passeio?
Nos automóveis, a evolução também acontece, mas chegar aos níveis mais altos de autonomia é mais complexo.
Os sistemas atualmente disponíveis em carros de produção estão concentrados principalmente nos níveis 1 e 2, nos quais o veículo pode controlar determinadas funções, como aceleração, frenagem e direção, mas o motorista continua responsável pela supervisão.
O nível 3 aumenta a autonomia e permite que o veículo assuma determinadas situações de condução, embora ainda existam condições para que o motorista precise retomar o controle.
No nível 4, o veículo pode conduzir sozinho dentro de determinadas condições e áreas de operação. Já o nível 5 representa a autonomia plena, sem necessidade de intervenção humana e sem restrição a um ambiente específico.
A diferença é que chegar ao nível 4 em uma mina, porto ou rota controlada é uma tarefa diferente de desenvolver um veículo capaz de operar sozinho em qualquer rua, cidade, estrada e condição climática.
E o Brasil?
No Brasil, o avanço tende a começar justamente em setores nos quais é possível controlar melhor o ambiente de operação, como mineração, agronegócio, portos e centros logísticos.
A própria experiência internacional mostra esse caminho. A Scania, por exemplo, afirma que seus primeiros projetos de transporte autônomo foram direcionados a ambientes industriais, como minas e portos, antes de uma eventual expansão para situações mais complexas.
Assim, antes de vermos carros de passeio completamente autônomos circulando por qualquer cidade, é possível que caminhões sem motorista se tornem cada vez mais comuns em operações específicas e rotas controladas.
A tecnologia ainda enfrenta desafios técnicos, regulatórios e de infraestrutura, principalmente quando o objetivo é ampliar a autonomia para ambientes públicos e imprevisíveis. Mas, no transporte pesado, os primeiros passos já estão acontecendo em diferentes partes do mundo.