O mercado de carros usados e seminovos começa a apresentar um comportamento diferente do observado nos últimos anos. Depois de uma forte valorização durante e após a pandemia, os preços passaram a subir em ritmo bem mais lento, cenário que acende um alerta principalmente entre as empresas de locação de veículos.
Entre 2020 e 2025, o preço dos carros usados acumulou alta de aproximadamente 83%, segundo o levantamento citado no material. O cenário, porém, começou a mudar ao longo de 2026.
DESACELERAÇÃO
Em julho deste ano, o IBV Auto, índice que acompanha o comportamento dos preços dos veículos, registrou alta de apenas 0,07%. O resultado representa uma desaceleração significativa em relação a junho, quando o indicador havia avançado 0,57%.
Na prática, isso significa que os veículos usados continuam valorizando, mas em um ritmo muito menor do que o observado anteriormente.
JUROS E CONCORRÊNCIA
Um dos fatores que ajudam a explicar esse movimento são os juros elevados, que tornam o financiamento de veículos mais caro e dificultam o acesso ao crédito.
Com menos consumidores conseguindo financiar um carro, a demanda por usados pode ser afetada. Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro passou a receber uma quantidade maior de carros novos híbridos e elétricos, principalmente de fabricantes chinesas.
A maior oferta de veículos com novas tecnologias aumenta a concorrência e pode fazer com que modelos usados precisem apresentar preços mais competitivos para continuar atraindo compradores.
IMPACTO NAS LOCADORAS
A mudança preocupa especialmente as locadoras de veículos, já que os automóveis são parte fundamental do negócio. O modelo tradicional dessas empresas envolve comprar os carros, utilizá-los durante determinado período e posteriormente vendê-los para recuperar parte do investimento.
O problema aparece quando a empresa calcula que conseguirá vender determinado veículo por um valor no futuro, mas o mercado sofre uma desvalorização maior do que a esperada.
Essa diferença entre o preço pago na aquisição e o valor recuperado posteriormente representa a depreciação do veículo e pode afetar diretamente os resultados das empresas.
ESTRATÉGIA
Diante desse cenário, as locadoras passaram a adotar estratégias mais cautelosas para controlar os impactos da desvalorização.
A Localiza, por exemplo, registrou no segundo trimestre de 2026 uma depreciação média anualizada de R$ 8.243 por veículo, indicando uma postura mais conservadora em relação ao valor futuro dos automóveis de sua frota.
A Movida, por outro lado, registrou depreciação média anualizada de aproximadamente R$ 7,2 mil por veículo no segundo trimestre de 2026, acima dos R$ 6,7 mil registrados no mesmo período do ano anterior.
A empresa relaciona o comportamento à renovação da frota com modelos de menor preço, como Renault Kwid, Fiat Mobi, Volkswagen Polo, Fiat Argo, Chevrolet Onix e Hyundai HB20.
A estratégia tem uma lógica simples: veículos com preço de aquisição mais baixo tendem a possuir um público maior no mercado de usados, facilitando a revenda posteriormente.
MERCADO AINDA NÃO ESTÁ EM CRISE
Apesar da desaceleração dos preços, o cenário não significa que o mercado de usados e seminovos esteja em crise.
As locadoras continuam renovando suas frotas e comercializando milhares de veículos. O principal desafio está na dificuldade de prever quanto esses automóveis valerão daqui a alguns anos.
Com juros elevados, mudanças no comportamento do consumidor e a chegada cada vez maior de veículos eletrificados, as empresas precisam trabalhar com projeções mais conservadoras para evitar perdas maiores no momento da revenda.
Para quem pretende comprar um usado, por outro lado, esse movimento pode representar uma oportunidade de encontrar preços mais competitivos, especialmente caso a desaceleração da valorização continue nos próximos meses.