Se você já percebeu que o celular carrega rapidamente no início e reduz o ritmo quando se aproxima dos 100%, saiba que algo parecido acontece com os carros elétricos.
 
Em uma estação ultrarrápida, um veículo pode começar a recarga recebendo 150, 250 ou até 350 kW, mas essa potência diminui progressivamente conforme a bateria aumenta o nível de carga. O comportamento é proposital e está relacionado à forma como as baterias de íons de lítio são protegidas.
 
Por que a recarga fica mais lenta?
 
As baterias de íons de lítio não conseguem receber a mesma quantidade de energia durante toda a sessão de carregamento. Quando estão com um nível de carga mais baixo e dentro da temperatura adequada, as células conseguem trabalhar com correntes mais elevadas.
 
À medida que a carga aumenta e as células se aproximam de sua tensão máxima, o sistema precisa reduzir a intensidade da recarga.
 
É nesse momento que entra em ação o BMS, sigla em inglês para sistema de gerenciamento da bateria. Ele acompanha em tempo real fatores como temperatura, estado de carga e tensão das células e determina quanta corrente a bateria pode receber.
 
A lógica é semelhante à dos celulares e notebooks. Perto da carga máxima, esses dispositivos também reduzem a potência para controlar as condições de funcionamento da bateria.
 
Nos carros elétricos, o sistema é mais complexo e conta com gerenciamento térmico próprio, mas o princípio é semelhante. A bateria passa de uma fase em que consegue receber corrente elevada para outra em que a tensão precisa ser mantida dentro de limites seguros.
 
Por isso, mesmo que um eletroposto seja capaz de fornecer 350 kW, isso não significa que o carro receberá essa potência durante toda a sessão. É o próprio veículo que determina quanto consegue aceitar em cada momento.
 
Por que os 80% viraram referência?
 
Os 80% são frequentemente utilizados como referência quando se fala em recarga rápida, mas não existe uma regra segundo a qual todos os carros reduzem a potência exatamente nesse ponto.
 
Cada modelo possui uma curva de recarga própria. Alguns começam a reduzir a potência antes dos 80%, enquanto outros conseguem manter valores elevados por mais tempo.
 
A temperatura também tem influência importante. Uma bateria muito fria ou muito quente pode ter a potência limitada mesmo com apenas 20% ou 30% de carga.
 
Por isso, alguns carros elétricos modernos possuem pré-condicionamento da bateria. O sistema aquece ou resfria o conjunto antes da chegada a um carregador rápido para deixá-lo mais próximo da temperatura ideal.
 
Em determinados modelos, basta selecionar o eletroposto como destino no navegador para que o veículo inicie automaticamente esse processo durante o trajeto.
 
Por que as fabricantes divulgam de 10% a 80%?
 
A redução da potência nos níveis mais altos de carga também explica por que as fabricantes normalmente divulgam tempos de recarga como 10% a 80%, em vez de informar quanto tempo o veículo leva de 0% a 100%.
 
É justamente nessa faixa que a bateria consegue aproveitar uma parcela maior da potência disponível no carregador.
 
Os últimos 20% podem consumir uma quantidade desproporcional de tempo. Em determinados veículos, recuperar essa parte final pode levar quase tanto tempo quanto carregar uma parcela muito maior da bateria.
 
Por isso, durante uma viagem, permanecer até 100% em uma estação pode não ser a estratégia mais rápida quando existem outros carregadores disponíveis no caminho.
 
Então vale a pena carregar até 100%?
 
Depende da situação.
 
Em uma viagem para regiões com poucos eletropostos, chegar aos 100% pode fazer sentido para aproveitar toda a autonomia disponível.
 
Por outro lado, quando existem estações ao longo do trajeto, pode ser mais eficiente sair com uma carga próxima de 80%, continuar a viagem e fazer outra parada posteriormente. Assim, o veículo volta a carregar em uma faixa na qual consegue receber potência mais elevada.
 
Isso não significa que carregar até 100% seja necessariamente ruim ou que todos os carros devam ser limitados a 80% no uso cotidiano.
 
A recomendação varia de acordo com a química da bateria, o sistema de gerenciamento térmico, as margens de proteção e as orientações de cada fabricante. Portanto, o motorista deve seguir as instruções específicas do veículo.
 
A redução da potência nos últimos pontos percentuais faz parte justamente do gerenciamento da bateria. É uma estratégia para permitir que o conjunto receba altas potências durante parte da recarga sem manter as células submetidas ao mesmo nível de estresse quando estão próximas do limite máximo.