Quase 30 anos atrás, um ônibus de aparência futurista chamou a atenção de quem passava pela Avenida Paulista, em São Paulo, e parecia ter saído diretamente de um filme de ficção científica. O veículo, porém, era real e estava no Brasil para testes e ações de divulgação da Volvo.
Tratava-se do Volvo ECB (Environmental Concept Bus), um conceito funcional apresentado pela fabricante sueca em 1995. O modelo utilizava uma solução híbrida que combinava propulsão elétrica com um gerador alimentado por uma turbina a gás movida a etanol.
Um ônibus muito à frente do seu tempo
O sistema funcionava de maneira diferente dos ônibus convencionais da época. As rodas traseiras eram movimentadas por um motor elétrico alimentado por baterias, enquanto a energia para recarregar essas baterias vinha de um gerador acionado por uma turbina a gás que utilizava etanol como combustível.
O Brasil foi escolhido para os testes justamente pela ampla disponibilidade do combustível. Naquele período, o país era praticamente único por oferecer etanol em postos de abastecimento de forma tão disseminada.
O ECB chegou ao Brasil de navio, vindo da Suécia, e foi levado de caminhão até a fábrica da Volvo em Curitiba (PR). Depois de circular dentro da unidade, recebeu autorização para rodar pelas ruas da cidade e chegou a atuar em linhas regulares, transportando passageiros.
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O veículo tinha capacidade para 80 pessoas, sendo 28 sentadas.
Design chamava atenção nas ruas
Além da tecnologia de propulsão, o visual e os equipamentos do ECB estavam muito à frente do que era comum no transporte coletivo brasileiro dos anos 1990.
O motorista ficava em uma posição central e isolada do salão de passageiros. O ônibus também contava com piso baixo e plano e sistema de “ajoelhamento”, que reduzia a altura do veículo para facilitar o embarque e o desembarque.
Outro detalhe impressionante para a época eram as câmeras utilizadas no lugar dos tradicionais espelhos retrovisores, tanto externos quanto internos.
Como boa parte dos deslocamentos urbanos era realizada utilizando o motor elétrico, o ônibus também chamava atenção pelo baixo nível de ruído.
Do Paraná para a Avenida Paulista
Depois da experiência em Curitiba, o ECB seguiu para São Paulo. O conceito foi exposto no estande da Volvo durante a Brasil Transpo, feira que posteriormente daria lugar à atual Fenatran.
Antes de retornar à Suécia, porém, o ônibus ganhou uma última oportunidade de circular pelas ruas paulistanas.
Em um domingo de outubro de 1997, o ECB percorreu a Avenida Paulista, em uma época em que a tradicional avenida ainda era aberta normalmente aos automóveis aos domingos.
O contraste com os veículos que circulavam pela região era enorme. O desenho do ônibus parecia pertencer a outra época, especialmente quando colocado lado a lado com carros populares que estavam nas ruas naquele período.
A passagem também rendeu diversas fotografias feitas pela imprensa e por pessoas que encontraram o veículo durante o trajeto.
Até o abastecimento virou história
Durante o passeio pela Paulista, as baterias do ECB começaram a perder carga. O problema era que, naquele momento, não existia a possibilidade de simplesmente conectar o ônibus a um carregador, já que o conceito não possuía tecnologia para recarga externa.
A solução foi bastante brasileira.
O ônibus foi levado até um posto de combustíveis da Rede Lavabem, localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Pamplona. Mesmo com o espaço apertado e sem ter sido projetado para receber um veículo daquele tamanho, foi possível posicionar o ECB para o abastecimento.
O tanque recebeu etanol, permitindo que o gerador voltasse a produzir energia para as baterias e que o ônibus continuasse seu trajeto.
Conceito voltou para a Suécia
Depois da passagem pelo Brasil, o ECB retornou à Europa, onde participou de outras demonstrações antes de ser preservado por muitos anos no Museu da Volvo, em Gotemburgo.
O museu foi fechado em 2023 e substituído pelo World of Volvo, uma atração mais ampla dedicada à história da empresa. O ônibus, entretanto, não passou a integrar a exposição do novo espaço.
Atualmente, o paradeiro do ECB é reservado, mas o conceito deixou uma história curiosa na indústria automotiva: um ônibus híbrido movido a eletricidade e com gerador a etanol que, décadas antes da popularização dos veículos eletrificados, já chamava atenção pelas ruas do Brasil.